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Exposição Talvez Seja Mentira: narrativas fotográficas ficcionais

Curadoria: Flora Assunção

TALVEZ SEJA MENTIRA: NARRATIVAS FOTOGRÁFICAS FICCIONAIS
Artista: Havane Melo
Curadoria: Flora R. Assumpção
DACC | 2022
 
 
Talvez seja mentira... ou não.
 
"Tudo pode ser transformado, deformado e eliminado pela luz. Ela é exatamente tão flexível quanto o pincel." (Man Ray)
 

A exposição "Talvez seja mentira: narrativas fotográficas ficcionais", de Havane Melo, apresenta fotografias, geralmente PB, que questionam o caráter ficcional da realidade. São exibidas imagens de doze séries que integram parte da tese de doutorado da artista, em cujo discurso imagético são constantes elementos como ficção, representação, encenação, ironia, humor (discreto, mas por vezes ácido), estranhamento, feminismo, crítica sociopolítica e metalinguagem.

Tal metalinguagem se dá tanto pelo questionamento da realidade pela ficção quanto por interferências textuais na linguagem da visualidade e pelas múltiplas referências próprias do meio de artes visuais que a artista incorpora em suas obras, demandando um olhar mais atento e estudado para suas imagens.


Seja pelo preto-e-branco ou pelas narrativas ficcionais criadas pelos conjuntos de imagens, seja pela referência ao surrealismo ou pela construção imagética em estúdio, ou mesmo pelo tom de humor irônico que se pode captar desde o primeiro relance, de imediato está posta a alusão à Man Ray.


As fotografias de Havane Melo são imagens planejadas e construídas, milimetricamente projetadas em estúdio. Controladas. Arquitetadas. Cultivadas. Manuseadas. Podemos verificar em sua obra os termos fotografias cinematográficas (enquanto cenas construídas) ou agricultura da imagem, tais como definiu o fotógrafo canadense Jeff Wall ao se referir à fotografia contemporânea, em oposição aos primórdios da descoberta da fotografia, consagrados ─a despeito da construção fotográfica de Hippolyte Bayard  já em 1839/1840 de seu autorretrato como homem afogado ou da fotomontagem "Os Trinta Valérios" do brasileiro Valério Vieira, datada de 1901─ pela noção que consagrou a fotografia como uma representação da realidade do fotógrafo caçador, de Henri Cartier-Bresson em sua busca pelo "instante decisivo". Não creio, evidentemente, que possamos engessar ou limitar a atuação da fotografia contemporânea somente à primeira noção ou mesmo a ambas; as opções são quase infinitas, a depender da criatividades dos artistas, porém penso nestas extremidades opostas como duas grandes vertentes da fotografia.


"Abismos" (2018) apresenta imagens já muito vistas com eixos/ramificações de copas de árvores, mas o incomum é a configuração em composições numa tentativa de conexões entre céus e árvores diversas, criando novas espacialidades.
Vemos o mesmo modus operandi em "As partes que ainda cabem em mim" (2018) - cortes de fachadas arquitetônicas contra o céu, em cortes abruptos.


De "Coisas necessárias para fazer magia contemporânea" (2018), uma releitura fotográfica da obra de Duane Michaels que anteriormente incluiu uma instalação, aqui temos apenas a fotografia, que remete a um altar ritual para divindades da natureza, realizada em cor, mas com uma paleta muito sóbria, mantendo o mesmo estilo das PB.


Prosseguindo com o interesse da fotógrafa por elementos da natureza na fotografia, apresentamos "O final das expectativas de tempestade" (2019), composto por 9 fotografias de paisagens frias e úmidas. Projetadas, encenadas, construídas. Remetem aos cenários das narrativas fotográficas ficcionais do célebre fotógrafo e professor catalão Joan Fontcuberta.


"Lanchonete Garota" (2019), traz fotografias de arquiteturas em vistas urbanas com interferências textuais e de padrões circulares criando texturas (semelhante a uma utilizada por Man Ray em 1926) que lembram, ao mesmo tempo, pedras e bolhas de sabão, paradoxo visual bem demarcado pela impressão em papel vegetal translúcido leitoso ─ e por acaso muito bem-vindo esta relação é mantida pelos cavaletes de vidro cristal da exposição.


"Fake Romance" (2019), é composto por 3 imagens de aparelhos tecnologicamente antigos do ambiente doméstico ─um rádio, um telefone e uma máquina de costura─, com interferências de frases algo desconexas e misteriosas.

Em "Gafe" (2019) temos algumas das poucas imagens coloridas de Havane, onde vemos membros inferiores (pernas e pés) e superiores (braços e mãos) com vestes pretas e sapatos (salto alto fino!) e luvas vermelhos, compondo uma espécie de coreografia de uma queda. Performance de estúdio.

Em "Releitura da obra É o que sobra, de Ana Maria Maiolino" (2021), Havane Melo reproduz situações algo agressivas e desconfortáveis, tais como as de Maiolino, pela simulação de automutilação. Se podemos traçar relações na obra de Maiolino, através de um paralelo do corpo físico do indivíduo ao corpo social do país, com a censura política dos tempos de ditadura civil-militar no Brasil, certamente não é mera coincidência realizar tal releitura no Brasil de 2021.


"Estranhas Diversões" (2017-2019) são fotografias analógicas PB refinadas na técnica, na composição geométrica sintetizando o espaço tridimensional no bidimensional e nos resultados alcançados, nos apresentando excertos visuais de parques de diversões nas cidades de Brasília-DF e Garanhuns-PE.


"Bodódromo" (2017-2019-2022), apresenta 3 imagens de cabras e foices. O silêncio seco e a delicadeza destas imagens diz tudo, brutalmente, sem uma única palavra.

Da série "Não fale bobagens"(2016-2021), trazemos apenas duas imagens ─"Problems of Girls" e "Beware of The Man"─, ambas aludem a ícones do cinema hollywoodiano, a super-heroína Mulher Maravilha e o consagrado filme O Planeta dos Macacos, respectivamente. A interferência da palavra constrói e questiona a natureza da imagem. Tal como são apresentadas, pela própria construção da imagem com o uso de símbolos, estas obras nos remetem à mesma atmosfera irônico-crítica das fábulas visuais afiadíssimas da artista argentina Liliana Porter. Ainda aludindo às fábulas recriadas com objetos, trazemos a obra narrativa exposta em forma de livro "I hate your duck" (2015).


Quando a fotografia debate ficção e realidade, o cerne sempre se inicia no questionamento das noções de realidade e de representação, embate este já travado à exaustão desde Man Ray, mas que permanece inesgotável. Atualmente, grandes fotógrafos como Joan Fontcuberta e Abelardo Morell, nos passos de Man Ray, seguem desfiando e desafiando os limites entre real, simulacro, representação, ficção. Podemos, através desta exposição, intuir que Havane Melo trilha por veredas similares.

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